quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Santa franciscana do dia - 17/08 - Santa Beatriz da Silva



Virgem religiosa da Segunda Ordem (1424-1490). Fundadora das Monjas Concepcionistas Franciscanas, canonizada por Paulo VI no dia 3 de outubro de 1976.

Dona Beatriz da Silva nasceu na vila de Campo Maior, em Portugal, por volta de 1437. Ela foi da linhagem dos reis de Portugal, filha de Rui Gomes da Silva, alcaide-mor de Campo Maior, e de sua mulher dona Isabel de Meneses, filha natural de dom Pedro de Meneses, 1.º conde de Vila Real e 2.º conde de Viana do Alentejo. Teve pelo menos doze irmãos: Pedro Gomes da Silva (alcaide-mor de Campo Maior); Fernando da Silva de Meneses (alcaide-mor de Alter do Chão), dom Diogo da Silva de Meneses (aio do rei dom Manuel de Portugal, que o fez 1.º conde de Portalegre e senhor de Gouveia), Afonso Teles (alcaide-mor de Campo Maior), João de Meneses (chamado frei Amadeu Hispano ou Beato Amadeu, secretário e confessor do papa Sisto IV, e fundador da Congregação dos Amadeítas, da Ordem de São Francisco), Aires da Silva (cavaleiro em Ceuta, falecido com fama de santo de e mártir), dona Branca da Silva (donzela da corte régia), dona Guiomar de Meneses, dona Maria de Meneses (donzela da rainha dona Isabel, mulher do rei dom Afonso V de Portugal), dona Mécia de Meneses (donzela da infanta dona Joana, mulher do rei dom Henrique IV de Castela), dona Leonor de Meneses (donzela de Santa Joana Princesa) e dona Catarina de Meneses.

Ainda pequena, dona Beatriz da Silva partiu para a corte régia de Castela, em 1447, como donzela da rainha Isabel, segunda mulher do rei João II de Castela. A presença de dona Beatriz na corte não passou despercebida. Sua formosura cativante encantou a todos. A rainha, dominada por uma mistura de ciúme e inveja, fechou dona Beatriz em um cofre, mas uma invisível proteção da Virgem Maria a salvou. Após este triste episódio deixa Tordesilhas, onde a corte régia então estava instalada, e vai para Toledo, onde se recolheu no Mosteiro de São Domingos, o Real, de monjas dominicanas. Por devoção, decidiu manter sempre seu rosto coberto com um véu branco, de forma que, enquanto viveu, nenhum homem e nenhuma mulher viu seu rosto. Permanece neste mosteiro por cerca de 30 anos.

Em 1484, a rainha dona Isabel, a católica, doa-lhe os Palácios de Galiana onde existia uma Igreja antiga que tinha o nome de Santa Fé. Dona Beatriz, passada a esta casa, começou a adaptá-la para a forma de mosteiro. Levou consigo dona Filipa da Silva, sua sobrinha e outras onze mulheres, todas de hábito religioso e honesto embora não pertencessem a Ordem alguma. E, uma vez instalada na nova casa, querendo dar fim à sua determinação, estabeleceu a maneira de viver que queria e enviou-a a Roma, numa súplica conjunta com a rainha. Foi tudo aprovado e outorgado pelo Papa Inocêncio VIII pela bula “Inter Universa” em 1489. O Mosteiro já estava fundado e tudo já fora preparado para entregar o hábito a ela e às monjas que ela havia instruído, quando Nosso Senhor quis chamá-la. Morreu no ano de 1492. 

Na hora de sua morte, foram vistas duas coisas maravilhosas. Uma foi que, quando lhe levantaram o véu para administrar-lhe a unção foi tal o esplendor de seu rosto que todos ficaram admirados. A segunda, foi que em sua fronte viram uma estrela, que lá ficou até que ela expirou, e que emitia uma luz e um esplendor igual à luz quando mais brilha. Faleceu com fama de santidade.

Em 1511 o Papa Júlio II atribui à ordem nascente Regra Própria.

Dona Beatriz foi beatificada pelo Papa Pio XI em 26 de julho de 1926 e solenemente canonizada em 03 de outubro de 1976 pelo Papa Paulo VI. Sua Festa é celebrada no dia 17 de agosto.

Santa Beatriz da Silva se destacou por sua fé inquebrantável, por sua pureza, que lhe permitiu ser Lírio Alvíssimo escondida no coração de Jesus no Canteiro da Imaculada, por sua paciência alicerçada na esperança, por sua caridade, por sua simplicidade, pobreza, humildade, generosidade em oferecer um perdão sincero, enfim, adornada de todas as virtudes indica-nos o caminho mais curto, fácil e seguro para chegar a Cristo: Maria.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Especial Santa Clara de Assis - Seguimento de Cristo à maneira de Clara


1. Falar em Francisco e Clara é pensar em pessoas profundamente tocadas pela figura de Cristo pobre, crucificado, encarnação da bondade extrema de Deus.  Falar em franciscanos e clarissas é referir-se a pessoas que foram se deixando formar, modelar e plasmar  pela pobreza do Cristo.  A melhor palavra não é formar, mas deixar-se seduzir por esta pobreza que tem um nome:  Jesus Cristo.  Estamos conscientes que a pobreza não significa apenas uma sobriedade nas vestes, na comida, no uso das coisas materiais. Tem ela a ver com desprendimento, despojamento,  não posse. Não somente de bens materiais mais do velho homem que tenta sobreviver em nós. Não se trata apenas de um seguimento externo, mas de uma  identificação de vida a vida entre o discípulo e o Cristo pobre.  Na verdade,  não podemos nos ater ao Cristo histórico, encerrado nas páginas dos evangelhos, mas a esse Ressuscitado  que nos convida a entrar em comunhão nupcial com ele. Seguir Cristo à maneira de Clara será efetivamente estabelecer liames vitais e “virginais”,  totais com esse Esposo que aparece no espelho. O incontido amor por Cristo faz com que Clara se torne sedenta de amor do Esposo feito pobreza. 

2. Clara, como Francisco, começa e termina a Regra com uma declaração programática: “A forma e a vida  da Ordem das Irmãs pobres, que o bem-aventurado Francisco instituiu, é esta:  Observar o  santo evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”  (Regra I,1). “Observemos para sempre a santa pobreza e humildade de  Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe e o santo Evangelho que prometemos firmemente” ( Regra XII).  Estas palavras abrem e fecham o texto da Forma de Vida escrita por Clara. Não constituem elas uma simples moldura, mas o fundamento que a tudo dá sustento.

3. “Por isso, de joelhos dobrados e prostrada, recomendo a todas as minhas irmãs atuais e futuras à Santa  Igreja romana, ao Sumo Pontífice e principalmente ao  senhor cardeal que for encarregado da Ordem dos Frades Menores e de nós, para que, por amor daquele Deus que pobre foi posto no presépio, viveu pobre no mundo e ficou nu no patíbulo faça com que sempre seu pequeno rebanho  que o Senhor gerou em sua Igreja pela palavra e o exemplo de nosso bem-aventurado Pai São Francisco para seguir a pobreza e a humildade de seu Filho dileto e da Virgem, sua gloriosa Mãe, observe a santa pobreza que prometemos…”  (Testamento 44ss).  Clara quer levar suas irmãs ao essencial.  Se o Filho de Deus escolheu o caminho da pobreza e do despojamento, então este é o caminho real que nos leva à Terra da Promissão.

4. Misturam-se nos escritos de Clara a imagem do Cristo rei  (2CtIn) e a imagem do Cristo caminho.  Clara  emprega as duas imagens em suas cartas a  Inês de Praga. Ela distingue os aspectos  do mistério total de Cristo que habita na alma.  A imagem do Cristo rei, reinando agora gloriosamente no céu, é a imagem do Esposo e objeto primário de seu desejo. Porém, a imagem do Cristo visto no contexto do mistério da Encarnação, o Cristo na sua humanidade, pobre e humilde, é o  caminho  para a desejada união.  Os desponsórios místicos têm seu fundamento no aniquilamento amoroso do amado.

5. Com toda evidência, Clara exorta implicitamente a Inês a seguir aquilo que a literatura espiritual da Idade Média chama de  caminho real. Para São Bernardo, a “via real”  é aquela que se faz sem desvios,  sem delongas  desnecessárias. A pobreza é caminho real para a união esponsal porque elimina as causas de dissipação que nascem do apego aos bens terrenos. O caminho da pobreza, o caminho que o Senhor manifestou em sua  humanidade: o caminho da pobreza e da humildade que levam à posse do Reino dos céus: “Ó bem-aventurada pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas! Ó santa pobreza, aos que a tem e desejam, Deus prometeu o reino dos céus e são concedidas sem dúvida alguma a glória eterna e vida feliz.  Ó piedosa pobreza, que o Senhor Jesus Cristo se dignou abraçar acima de tudo, ele que regia e rege o céu e a terra, ele que disse e tudo foi feito  (1CtIn 15-17). “O reino de Deus só é prometido e dado pelo Senhor aos pobres”  (1CtIn 25). Este é o caminho duro e a porta estreita. Por meio de uma tal porta  realiza-se a união mística com Cristo, o início do reino celeste já nesta terra.  O caminho que Cristo nos mostra durante a sua vida terrena é o mesmo caminho que Francisco ensinou a Clara.  Com sua palavra e seu exemplo,  Clara orienta Inês e as Irmãs a percorrerem esta  via regia. Durante toda a sua vida, Clara lutou para que ninguém a retirasse de tal caminho. No Testamento, ela escreve: “O Filho de Deus se fez para nós o caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco, que o amou e seguiu de verdade, nos  mostrou e ensinou  por palavra e pelo exemplo”  (Test, 5).


6. Podemos dizer que  Clara, na qualidade de guia espiritual, indicou e continua indicando para nós um só caminho que leva à união com Cristo, a via regia, o caminho percorrido primeiro  por Cristo e Maria e depois por Francisco, seguimento do Cristo esposo, pobre e humilde. Nas palavras que ela empresta da Regra Bulada de São Francisco, Clara  reforça  que este é o caminho real:  “Como peregrinas e forasteiras neste mundo… esta é a sublimidade da altíssima pobreza que vos fez, minhas caríssimas irmãs,   herdeiras e rainhas do reino dos céus… Esta seja a vossa porção que nos leva à terra dos vivos”  (RCl 8).

7. Clara interpreta  o seguimento essencialmente em termos de amor  sensível pela humanidade de Cristo –  humanidade esta que é o caminho que nos leva ao Pai –  e imitação das virtudes que o próprio Cristo viveu, principalmente a pobreza e a humildade. A prática destas virtudes místicas não se limita a uma imitação exterior de Cristo,  mas um modo concreto de  entregar-se  totalmente a Cristo e abraçar misticamente sua humanidade e desta forma aprofundar a união esponsal com ele.  Podemos avaliar a sensibilidade do amor de Clara para com Cristo no uso frequente de palavras que aludem ao seguimento em termos de abraço.  Trata-se do abraço místico ou da união mística com a humanidade de Cristo mediante   a prática das virtudes  por ele santificadas:


“Ó bem-aventurada  pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas!”(1CtIn 15). “Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre. Veja como por você ele se fez desprezível e siga-o sendo desprezível por ele nesse mundo” (2CtIn 18-19). “Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza  que a levaram a abraçar o tesouro incomparável e escondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual se compra aquele por quem tudo foi feito”(3CtIn 7).

8. O seguimento de Cristo para Clara  comporta o abraço místico da humanidade de Cristo; em outras palavras, o caminho da imitação exterior da humanidade de Cristo e a conformidade (o entregar-se) interior da vontade à vontade de Deus levam ao amor puro, ao coração dos esponsais místicos entre a alma humana e o Verbo.  “É essa a perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 5-7).

9. Maria Victoria Triviño,  clarissa espanhola, numa belíssima obra sobre os temas espirituais de Clara,  conclui assim o capítulo a respeito da espiritualidade nupcial de Santa Clara, que outra coisa não é senão esse enamoramento da alma virginal pelo Esposo.  Os temas do seguimento e da virgindade se entrelaçam: “Clara  sente-se fortemente atraída  – carisma de virgindade – e corre no encalço de  Jesus Cristo empenhando todo o seu afeto, todos os sentidos e faculdades.  Sua ascética consiste em “correr” impulsionada “pela violência do desejo”. Sua mística é o abraço esponsal. Sua bem-aventurança é a doçura escondida.

Não quer que seu pensamento se afaste da lembrança do Senhor, e o adivinha presente sob as mais diferentes aparências. Ama de todo o coração.  Comove-se e chora quando fala da paixão  (Proc XI,2), fica   fora de si quando o contempla sozinha (ProcIII,25), treme quando recebe o Corpo do Senhor… Exulta ao escutar o Vidi aquam… Uma tal  integração da afetividade  faz dela uma mulher ardorosa e apaixonada.

Pode-se dizer que Clara nada fez sem entusiasmo.  Basta recordar a fuga noturna, o desejo do martírio, o episódio dos sarracenos, o assédio de Vital de Anversa. No grande e no pequeno, no ordinário e no extraordinário sempre em tudo colocou um grande amor.
Mente, faculdades, coração, instinto… Tudo está polarizado num amor exclusivo. Assim  todos os níveis do ser unificam no amor a Jesus Cristo. A vivência da maternidade espiritual  faz com que ela se realize plenamente como mulher que se sente mãe, para Jesus Cristo e para com as irmãs.

Fruto desta unidade, em nível psicológico, é o equilíbrio, a harmonia. O que os autores modernos chamam de  psicologia dinâmica. O divino se enraíza no psicológico.  No plano espiritual, o fruto é um estado de bem-aventurança, a coroa da santidade: “.. estava sempre alegre no Senhor e jamais era vista perturbada, e sua vida era toda angélica” (Proc  III,6).
O tema nupcial, tão explícito na primeira carta, foi avançando com o clamor de Raquel (“Lembre-se da sua decisão como um segunda Raquel; não perca de vista seu ponto de partida…” (2CtIn 11) e com a adesão à Mãe dulcíssima que a ama, acompanha e cuida,  reaparece no começo do espelho.  Contemplando os mistérios no espelho  Clara se aprofunda no mistério do Amado. No final, a esposa repousa e descansa no beijo e no abraço da esposa do Cântico dos Cânticos (4CtIn 30-32).

Tudo o que disse Clara  foi revestido de delicadeza e de beleza. Para viver o que foi dito necessário foi muita fortaleza.  Estamos numa sociedade em que a virgindade é flor rara. Mal se fala dela.  Muitos são os que acreditam que ela não pode ser guardada. Sempre houve quedas e abandonos  que fizeram com que ela fosse menos digna de crédito. Quem não a acolheu não tem ouvidos para entendê-la, mesmo querendo discutir a seu respeito. A virgindade é um carisma que sempre ornou, orna e ornará a Igreja cristã.

É um carisma, um presente do Espírito  do qual se deve dar testemunho diante do mundo que não tem dele alta cotação.  A prudência humana não deve nos impedir de dar testemunho de sua beleza” (La vía de la beleza. Temas espirituales de Clara de Asís,  BAC  46,  Estudios y ensayos, p. 181-183). 

10. Frei Herbert Schneider, OFM, refletindo sobre o tema Claire d’Assise, école de vie spirituelle,   in Quaderni dell’Ufficio pro monialibus, n. 46, dicembre  2010,  fala da espiritualidade como transformação: “Santa Clara exorta Santa Inês de Praga em sua segunda carta a realizar o tríplice passo da vida espiritual (2CtIn 20): olhar (intuere), considerar (considerare), contemplar (contemplare). É, por assim dizer, um tríplice passo do exterior para o interior para as profundezas lá onde ela se sente possuída pelo desejo amoroso (desiderare) de imitar (imitare). É o caminho da transformação em Cristo:  trata-se de, pelo olhar,  experimentar com ele o sofrimento, na  consideração de morrer com ele e a partir desse momento acontece a transformação numa vida nova  com Cristo. É a mudança em Cristo.  Na espiritualidade  da transformação/mudança, a forma de Cristo passa a manifestar-se no homem. O que é realidade no Cristo torna-se também pela transformação e a título de dom realidade no homem”.

11. Basta.  O seguimento de Cristo na vida contemplativa significa transformar-se me Cristo. O amado de tanto se espelhar no Amante ganha  seus traços e vive em comunhão com ele.


Frei Almir Ribeiro Guimarães

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Especial Santa Clara - Clara, a face feminina e carinhosa do carisma franciscano.



Por  Vitório Mazzuco Fº

Santa Clara nasceu em Assis, no dia 16 de julho de 1193. Seu nome era Chiara di Messere Favarone, nome que evocava a força da família nobre. Nobre de nascença, nobre de costumes. Um pai, senhor feudal e cavaleiro. Família que tinha um palácio na cidade e um castelo no campo. Bela de rosto e rica de bolso. Uma mãe, Hortolana, mulher culta, sensível, líder e viajada. O pai morre cedo e a vida de Clara é conduzida por um tutor, seu tio Monaldo. Uma biografia simples com final previsto para o comum: arrumar um marido influente, rico e nobre para dar continuidade à estirpe dos Ofredducci Favarone.

Porém, aconteceu o oposto: a bela, e não despercebida Clara, é voltada para o espiritual, para a piedade, ama os pobres, é desapegada de sua herança, mistura-se com a vassalagem, acredita nos loucos sonhos de um jovem convertido que faz rumor em Assis, Francesco di Bernardone. Uma mulher prometida a cavaleiros, reis e príncipes, resolve prestar atenção num jovem deserdado pelo pai, que se desfaz do status de novo rico e resolve abraçar valores do Evangelho. Um mendigo penitente que vai criando um itinerário de vida. Mas não é o jovem que a atrai, mas sim o Evangelho percebido não como letra, mas como pessoa: Jesus, Francisco, leprosos, pequeninos, vermes do caminho e marginalizados. A Boa Nova não é só para monges, teólogos, clero, prelados e pregadores, a Boa Nova vale para todos os detalhes da bela Úmbria.

A menina Clara, com treze anos começa a perceber isto. O jovem Francisco, com 25 anos já está de carne e osso, hábito roto e calos nas mãos, olhos brilhando, e uma incontida alegria, totalmente envolvido no projeto de fazer o Amor ser amado. Clara tinha um primo, Rufino, que fez estrada com Francisco. Quando completou 18 anos, ajudada por uma governanta, fugiu de casa para ser livre na escolha. Se casar com um da mesma classe social era sonho da sua família; amar todas as classes sociais, incondicionalmente, era um sonho seu, atrelado a um acolhimento divino. Foi juntar-se com Francisco e seus companheiros em Santa Maria dos Anjos. Antes mandou apoio, ajuda e boas energias para o grupo que já estava lá. Quando se juntou à Fraternidade primitiva, cortou os cabelos e os cordões umbilicais do seu brilhante passado de moça rica.

Havia no ar a psicose da heresia que não a permitiu ser mulher entre homens penitentes. Foi viver um tempo num mosteiro de Beneditinas e depois, junto ao altar, presépio, cruz e eucaristia, ao Espírito Comum e Francisco, ao discernimento na prece, encontrou o seu lugar definitivo: cuidar da inspiração junto à Cruz de São Damião. Seu tio, cavaleiros a serviço da família procuraram, usando a força, levá-la de volta para a casa. Mulher que ama não conhece caminho de volta. Não tem retorno. Olha para a frente e abraça a vida de oração, silêncio, contemplação, ação, elementos de uma vocação que não diminuiu sua beleza e força de atração. Duas irmãs de sangue e sua mãe foram morar com ela no novo mosteiro. Nascia uma nova Ordem, as Damas Pobres, as Clarissas. Assim nasceu Clara de Assis, uma raiz forte da frondosa árvore que começou a ser semeada por Francisco de Assis.

Clara foi mais irmã que abadessa; encarnou humildade e sobriedade, paciência e serviço, cuidou com bênção e carinho das irmãs enfermas e fracas. Fez penitência sorrindo e caridade abrindo o mosteiro para os arredores. Assis e o mundo olhavam estarrecidos aquela jovem decidida que abriu mão de riqueza, de baú de jóias e vestes, valores do mundo, para seguir apaixonadamente Jesus. Transformou a sua condição social em força espiritual: ser cristã é casar com o Deus humilde, pobre, crucificado. Mostrou que beleza é Espelho do Sagrado. Que clausura não é fechamento, mas abertura para a escolha mais livre de Amor. 

Clara de Assis é uma heroína do desapego. Escondeu-se para deixar transparecer uma Verdade Maior. Hoje é para nós uma luz de personalidade forte, atitudes generosas, sensibilidade, este modo histórico de como o sagrado feminino se revela. Não renunciou o Amor, apenas purificou a escolha: tornou-se vassala do Grande Rei.

Muitos pensaram que era uma mulher frágil e manipulável por bulas, decretos, regras, protecionismo e propriedade curial. Ela mesma pediu um privilégio, garantido em 1228, de colocar tudo em comum sem acumular nada. Aprendeu com Francisco que ser pobre é pra valer: não ter nada mesmo para possuir a Única Riqueza que preenche o coração: Deus e a Fraternidade. Os dois foram os últimos da história a conseguir viver isto de um modo absoluto. Clara não ficou para a história como uma ex-rica. Permanece como uma mulher santa, irmã, esposa e mãe que guia vidas.

 Hoje tem mais de 21 mil seguidoras no mundo. O seu pobre mosteiro continua sendo uma mina de pedras preciosas lapidadas pelo Altíssimo. Nos últimos dias de sua vida escreveu uma Regra que muitos acham que é igualzinha a de Francisco; mas examinando bem é apenas um jeito de ser clara, de ser filha, de ser esposa, de ser irmã, de ser espelho do Evangelho. Não é apenas uma Regra de Vida Monástica, é um modo terno, forte e leal de organizar a vida seguindo o destino do Amado.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Especial Santa Clara De Assis - Clara hoje: Uma voz que não se cala




Frei Almir Guimarães

Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos foi posto no presépio! Admirável humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela  morrer a morte mais vergonhosa (4ª. Carta a Inês de Praga).

Cada geração é salva pelo santo que a contradiz  (Chesterton).

Dou graças ao Senhor por todas as vezes que, exatamente junto a um mosteiro, desde frade jovem pude fazer a experiência de “cura” recolocando em ordem harmoniosa os valores evangélicos de minha vocação e missão, graças à ajuda das irmãs clarissas.  Muitas vezes pedi hospitalidade em seus mosteiros para dar novo tom espiritual à minha vida. Obrigado a todas vós, irmãs clarissas, por esta função “terapêutica” tão importante para a caminhada vocacional de uma pessoa consagrada (Fr.  Giacomo Bini, OFM, Ex- Ministro Geral).

1.  Clara entrou na história ao nascer em 1193 e continua presente no até nossos dias depois de sua morte ocorrida em 1253.  O que Clara tem a dizer aos nossos tempos? Como as Irmãs Pobres poderão ser um grupo significativo nesses nossos tempos? Como os franciscanos seculares poderão beber  da fonte que brotou ( e continua jorrando) desse abençoado espaço que se chama São Damião, por onde circulavam Clara de Assis e suas  irmãs? O que tem Clara a dizer aos nossos tempos?

2. O carisma franciscano se completa admiravelmente no binômio Francisco-Clara. Em Carta dirigida às Clarissas por ocasião de outro jubileu da santa, o Ministro Geral dos Menores assim se exprimia: “Irmãs, minha profunda convicção é esta: necessitamo-nos reciprocamente. Mutilaríamos o carisma se caminhássemos separadamente. Não desejamos e não podemos percorrer estradas paralelas. Caminhando unidos, respeitando nossas diferenças, jogamos tudo: a fidelidade a Francisco e a Clara; a eficácia evangélica de nossa missão na Igreja e no mundo; a credibilidade diante daqueles que, hoje como ontem, estão convencidos de que Francisco e Clara são duas almas  gêmeas inseparáveis”.  Admirável e delicadamente feminino e masculino se encontram na busca ardorosa do seguimento do Cristo todo despojado.


3. Os Ministros Gerais da Primeira Ordem e da TOR publicaram Carta por ocasião do jubileu de 2012. As clarissas são as guardiãs do carisma clariano: “Chamadas pelo Espírito a seguir o Cristo pobre, crucificado e ressuscitado, vivendo o santo  Evangelho em obediência, sem nada de próprio e em castidade, vós sois as guardiãs do carisma clariano, mulheres consagradas que interagem com o mundo, contemplando os sinais que o Espírito semeia e difunde na história. Na escuta de Deus, vós falais hoje ao coração dos homens e das mulheres do nosso tempo com a linguagem do amor, cujas palavras se fundam na raiz da existência habitada por Deus” (…). As irmãs saberão conjugar as raízes do passado com a profecia do futuro: “Aos consagrados e consagradas se pede manifestar o absoluto de Deus. Vós, de um modo particular, sois chamadas a viver uma vida fundada sobre os sinais e símbolos que não remetem ao vazio de um estéril doutrinamento, ritualismo ou ativismo, mas que saibam conjugar hoje as raízes do passado e a profecia do futuro: estruturas, sinais e símbolos que simplesmente fazem ver a Deus”. Há, pois, um apelo a que, também, as clarissas sejam fiéis criativamente. O carisma de Clara não pode ser blindado a uma época. O Espírito não se deixa amarrar. Coloca-se sempre essa questão:  Como as clarissas, nesse mundo que é o nosso, saberão unir o passado e o presente?


4. Houve naquela noite do domingo de ramos a fuga noturna de Clara. Ela ouve a voz do Amado que a chama ao deserto. Ela se dá conta que um caminho se abre diante dela. A decisão podia ser tomada, mesmo que comportasse desafios. Estava na hora de sair e procurar uma terra distante como havia feito Abraão, caminhar sem mapa na mão para uma terra que Deus haveria de mostrar. Claire-Pascale Janet, numa biografia original, coloca as seguintes palavras na boca de Clara: “Está decidido. Como esperar mais ainda aquele que se entregou totalmente?  Nesse tempo da Quaresma ouço o convite que ele me faz: ‘Vem, eu vou te levar ao deserto para falar ao teu coração, e tu me responderás com todo o teu ser, com todo o teu coração e com todas as tuas forças. Sinto como que uma queimadura o amor que levou Francisco de ruptura em ruptura.  Eis o que eu procuro: a pobreza de Cristo. Um caminho novo diante de meus passos”.


 5. Na história de nosso seguimento de Cristo à  maneira de Francisco também deixamos para trás tudo e lançamo-nos na aventura franciscana. Uma quase menina ousa deixar a família, vender os bens, seguir um caminho que lhe é sugerido pelo Altíssimo sem maiores indicações. Acredita, tem fé no Senhor. Vislumbra em Francisco e seus irmãos a porta por onde deve passar. Cada franciscano e cada cristão à luz dessa fuga da nobre Clara iluminará sua própria vocação.  Não se pode apenas dizer-se franciscano mas ir em frente, esperar que o Senhor nos mostre seus desígnios, estar atento à loucura e insensatez do coração e à terrível tentação do desencorajamento e do desencanto. A fuga de Clara leva-nos a rever o modo como estamos vivendo a nossa aventura espiritual. Clara saindo de casa, foi à Porciúncula, depois esteve em São Paulo das Abadias e Santo Ângelo de Panzo… e  São Damião.  E ali, no exíguos espaços de uma clausura  teve um coração de forasteira e peregrina repetindo a ladainha do “queres de mim Senhor?”


6. Hoje vivemos o tempo da pós-modernidade.  Nessa era da liberdade contra as imposições, do respeito pela pessoa, do diálogo, da tolerância  assiste-se também à degradação dos valores absolutos  surgindo a era do vazio e o crepúsculo do dever, como dizem os especialistas. A sociedade dita do vazio é fraca, fragmentada, descontroladamente pluralista, que aplaude os valores como o hedonismo, o uso imediato das coisas e das pessoas,  essa era do relativismo.  Os que contemplam Clara ficam admirados de ver o  modo como ela concebeu a vida, a leitura que faz dos acontecimentos e de amá-los em Cristo.  Clara fascina pela nitidez no seguimento de Cristo e, sobretudo, na busca desse valor absoluto que é o Senhor na incansável busca de seus desígnios.


7. Pobreza  e alegria – Quando Clara escolhe seguir radicalmente o Cristo abandona realmente a tudo: segurança da família, as riquezas e os privilégios de linhagem nobre, o casamento, a possibilidade de ajudar melhor os pobres. Liberta-se de tudo e ganha um coração alegre e livre, aberto e transparente. Nenhum tipo de posse pode cobrir de nuvens sua alegria. A pobreza  de Clara e de Francisco é seguimento radical do Cristo. O caminho de Cristo em sua humilhação é o que revela a Clara  a grandeza da altíssima pobreza. Identificar-se com  Cristo pobre dá acesso à alegria do Reino e a seus tesouros. “Esta é a sublimidade da altíssima pobreza que vos fez, minhas irmãs caríssimas, herdeiras e rainhas do reino dos céus, pobres em coisas, mas sublimadas em virtudes. Seja esta a vossa porção que vos conduz à terra dos vivos” (Regra 8). Clara não canoniza a miséria e a pobreza, mas abraça a pobreza de Cristo. Num mundo que não conhece a verdadeira alegria, mas o ruído e  agitação, num mundo marcado por um consumismo devorador, num mundo insatisfação e de vazio, mundo em que o fundo dos olhos dos homens revelam desencanto Clara brilha como mulher alegre em seu despojamento. A grande maioria dos mosteiros de clarissas tem espaços de beleza na singeleza da  pobreza.  Eis aí uma grande lição!

8. Dirigindo-se às clarissas, os Ministros Gerais escrevem: “Cada fraternidade se torna sinal alternativo nos lugares de opulência e sinal de esperança  entre aqueles que vivem na precariedade, através do testemunho e da própria entrega e da confiança no Pai revelado por Jesus Cristo. Não uma pobreza ideológica ou intelectual, mas um estilo de vida que testemunha a confiança total no Pai, que toma forma no cotidiano da existência. Não faltam de fato no mundo algumas experiências de fraternidades que escolhem testemunhar uma vida extremamente sóbria, para serem solidárias com os pobres e confiarem somente na Providência, viver cada dia da Providência, na confiança de colocar-se nas mãos de Deus” (…).  “Vós nos ajudais a degustar a alegria da liberdade porque, contemplando, vedes  a Deus em cada aspecto da vida. Demonstrais que não seguis  as modas de hoje, que não estais em concorrência com o mundanismo, onde as aparências, a exageração exposição do ego, o individualismo,  a auto-referência colocam na sombra a  obra de Deus. Vós nos contais a vossa história com Deus que se nutre do silêncio, da escuta e da profundidade espiritual”.  A pobreza de Clara e de Francisco atribuem a Deus toda força e todo louvor.  Só ele é o bom, o sumo bem… Só ele é o Senhor.

9. O amor em fraternidade  -  A fraternidade é outra das marcas do carisma clariano. A pobreza brota do Amor. Amor que vem de Deus que une as irmãs, promove a estima pelos de fora, pela criação. Amar aos homens e ao mundo porque  Deus os ama. Para Clara, o sopro do Espírito do Deus-Amor é quem reúne as irmãs em fraternidade para a partilha da vida evangélica sugerida por Francisco. Cada irmã é um presente do amor do Pai e todas constituem a fraternidade para construir a unidade no mútuo amor. O amor verdadeiro é o oposto do individualismo e o egocentrismo. É amor para dar amor. Clara sabe viver o mútuo amor feito de prestações de serviço e da reciproca obediência.  Ela e suas irmãs tinham a consciência de terem sido chamadas a construir uma Igreja viva, construída do amor fraterno, vocação de ser fraternidade, porque o projeto de Deus Pai é criar uma família de filhos e irmãos. Por isso, a fraternidade para Clara será tecida de relacionamentos de  amor que unem as irmãs de um modo familiar, fraterno, materno com uma tão grande profundidade que só pode brotar do Evangelho. “Se uma mãe ama e alimenta a sua filha segundo a carne com quanto mais solicitude não deverá amar e nutrir sua irmã espiritual” (Regra 8).


10. A Fraternidade é o âmbito privilegiado em que se dá testemunho de um Deus que é comunhão na diversidade e diversidade na comunhão. Por isso, a fraternidade será sempre  um elemento irrenunciável do projeto franciscano-clariano. A fraternidade se manifesta em gestos marcados  pelo afeto que mostram uma relação transparente, sem duplicidade, baseada na simplicidade, na familiaridade e no reconhecimento dos dons que Deus deu a cada um. Corações puros como os de Francisco e de Clara são capazes de descobrir com admiração e respeito a obra do Espírito nos outros. “Se a Fraternidade é dom que se acolhe com fé e gratidão é, ao mesmo tempo, uma tarefa e, como tal deve ser construída e guardada. Por  uma lado, edificamo-la em base a relações humanas profundas, através do cultivo das qualidades requeridas em todas as relações humanas. Por outro lado, por ser a Fraternidade um tesouro que trazemos em vasos de barro é necessária guardá-la atentamente. Nesse contexto,  não nos admiramos que Clara faça suas as exortações de Francisco. Quer que as irmãs se guardem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, da detração e da murmuração, da dissenção e da divisão”  (Regra 10).  Será preciso uma colaboração entre o dom de Deus e o esforço pessoal.”.

11. O Ministro José R. Carballo observa ainda: “Para ser uma proposta de vida evangélica, a Fraternidade deve ser autêntica, concreta, íntima. Por esse motivo, ao mesmo tempo que pede às irmãs que uma manifeste à outra com confiança suas necessidades (Regra de Clara 8; cf. Regra Bulada 6), Clara as exorta a manifestar através de obras, o amor que professam: “Amando-vos umas às outras com a caridade de Cristo, demonstrai-vos por fora, por meio de boas obras, o amor que tende por dentro, para que provocadas por este exemplo, as Irmãs cresçam sempre no amor de Deus e na mútua caridade (Testamento 59-60). E se entre elas houve alguma desavença ou algum escândalo, as Irmãs não devem  deixar-se levar pela ira ou pela perturbação, mas devem manter a paz no coração  e apressar-se em perdoar para curar as feridas (cf. Regra 8; cf;. Regra Bulada 6), conscientes sempre do fato de que a unidade no amor mútuo é o vinculo da perfeição” (Regra 10) e que a fraternidade se constrói a preço da reconciliação e do perdão” (Vida Fraterna em Comunidade).  (Clara de Assis e de hoje. Um coração conquistado e seduzido pelo Senhor. No 750º  aniversário da morte de Santa Clara e da aprovação de sua Regra).

12. Vivemos numa sociedade onde impera o egoísmo, temos que reconhecer os efeitos demolidores do individualismo que nos assedia de todos os lados. O amor fraterno de Clara em fraternidade é tão atual quanto necessário. Trata-se de um espírito de família. As irmãs possuem o espírito de amoroso serviço, tentativa de converter o afã de dominação de uns sobre os outros pelo espirito de doação. “Neste mundo  dessolidarizado da pós-modernidade, em que cada um cuida de suas coisas, em que se reivindica a ambiguidade como estilo, em que o hedonismo é tido como valor, onde o homem quer o mínimo de coações e o  máximo de escolhas particulares, o mínimo de austeridade e o máximo de desejo, Clara nos oferece a mensagem do amor em fraternidade, amor solidário com todos os homens, para realizar o projeto de Deus Pai: uma família solidária que viva relacionamentos de amor, que viva o amor na fraternidade” ( El legado carismático de Clara en um mundo postmoderno, Maria del Carmen Elcid , revista Vida Religiosa, n. 3, 1994, p. 228).

13. O valor do Absoluto – Clara é essencialmente uma grande contemplativa, toda a sua vida consistiu em amar absolutamente, em viver face a face com o Absoluto para ir conformando-se com ele cada vez mais.  Para ela, a oração vivida como um relacionamento esponsal e pessoal é como a respiração da alma, é diálogo de amor, é o querer e realizar as coisas de seu  Amado Jesus. Unida intimamente a Jesus quer apresentar ao Pai toda honra e toda a sua glória. A contemplação foi constante em sua vida. Embora ela não consistisse para ela em fenômenos extraordinários, Clara recebeu iluminações excepcionais a respeito do mistério de Deus. Compreendeu existencialmente o que quer dizer abertura à graça e docilidade ao Espírito. Para poder adorar o Pai em espírito e verdade será preciso cuidar do centro vital do espírito que conecta com o Absoluto: o coração como lugar e diálogo amoroso da frágil criatura com o Deus Altíssimo.

14. A oração é um exercício de amor.  Que as irmãs trabalhem e trabalhem diligentemente. Assim evitarão o ócio que é inimigo da alma. Mas que não percam o espírito da santa oração (cf. Regra 7). Antes de tudo a oração.  Vivendo intensamente esse relacionamento íntimo, Clara não deixou nenhum tratado sobre a oração, não sistematizou seu relacionamento pessoal com o Cristo Pobre. Através de seus escritos, no entanto, descobrimos a contemplativa, a orante por excelência que convida ao silêncio interior e exterior como espaço privilegiado para perceber e acolher o Absoluto.

15. O coração de Clara nunca se saciava. Tanto na saúde quanto na doença, entregava-se à oração. A Bula de Canonização diz que ela consagrava  à oração a maior parte do dia e da noite.  Clara se serve do vocabulário bíblico para descrever a união com Cristo, seu amor esponsal: “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!  Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que a tua direita me abrace toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca” (4ª. Carta a Inês).

16. O que é a contemplação?  Frei José Rodriguez Carballo assim fala sobre o assunto: “Partamos de um texto da virgem Clara. A Santa escreve para Inês com o intuito de ensinar-lhe a contemplar. Não lhe pede que fale, cante ou reflita, mas somente que ponha a sua mente, sua alma e seu coração em  Jesus Cristo: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da gloria. Ponha o coração na substância da figura divina e transforme-se inteira pela contemplação, na imagem da divindade” (3ª. Carta a Inês  12-13).  Nisso consiste a contemplação: pôr, colocar, ordenar a mente, a alma e o coração que estejam  constantemente “voltados para o Senhor”, como diz São Francisco. Ele, e só Ele, deve ser o centro da capacidade de compreensão (a mente), o centro da capacidade de amar ( o coração) e o centro da capacidade de viver no mundo de Deus ( a alma). Desse modo, a contemplação abarca toda a pessoa” (Carta às Clarissas do  ano de 2006).

17. Pela contemplação de Cristo, Clara se tornou imagem da divindade e com todas as veias de seu coração escrevia a Inês de Praga: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei Celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti. Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!  Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que a tua esquerda esteja sobre a minha cabeça, sua direita me abrace toda feliz e me dês o beijo mais feliz de tua boca” (4ª. Carta a Inês, 27-32). Em seus escritos e suas cartas, Clara levanta o véu de sua contemplação marcada pelo ardor do desejo e o experimentar a doçura escondida que Deus revela aos que o amam.

18. Essa centralidade do Absoluto em Clara está em contradição com a época pós-moderna em que busca coisas e satisfações fragmentadas.  Não existe a história, mas acontecimentos isolados. Não existe o absoluto, mas o relativo. Tudo é provisório.  Tudo é parcial.  A vida de oração e, sobretudo de contemplação, é uma contribuição de Clara para os nossos tempos. Essa imersão no Amado lança luz sobre nossa oração tão separada de nossa vida e de nosso projeto de vida, oração tão mecânica e tão pobre. Somos convidados a rever nossa vida de busca do Absoluto. Clara grita aos nossos ouvidos.


Concluindo
A. Clara viveu a aventura de Deus. Entregou-se nas mãos do Senhor. Saiu de casa sem o mapa do caminho.  Entregou-se sem reservas à maneira de Abraão. Ele quer que hoje  questionemos  o “nosso ponto” de partida, a vivência de nossa vocação que haverá de fazer numa entrega irrestrita ao Senhor dentro das condições de seculares que são os terceiros franciscanos e de religiosos que são os frades.  Por sua vida, Clara grita esse testemunho.  Não somos donos de nós. Que o Senhor possa fazer uma obra de arte em cada um de nós! As coisas não estão acabadas.

B. Os franciscanos, sejam eles quais forem, são pessoas despojadas, sem trunfos, sem exigências, sem reivindicações na linha do poder, do prestígio, do ter. Clara e as irmãs de São Damião viviam em total simplicidade e modéstia, viviam de esmolas e, nos começos, as pessoas não eram generosas nas esmolas. Casa modesta, cama modesta, comida modesta,  muitas vezes vida de penúria. Clara ensina os franciscanos da Ordem 1ª a levar a sério o compromisso de pobreza evangélica. Sugere que as Fraternidades Seculares sejam constituídas de pessoas simples, sem pose, sem pompas. Gente que não dá importância às aparências, aos aplausos e todo tipo de superioridade, gente com um estilo de vida pobre. Muitas irmãs clarissas, em nossos dias, vivem realmente a pobreza e espelham a alegria de terem pouca bagagem na caminhada da vida.

C. Ser franciscano é ser cultivador da fraternidade. Desafio constante. Nunca matamos completamente o Caim que existe em nós. Vemos Clara cuidando das irmãs, cobrindo-as no tempo do inverno, acolhendo com carinho as que saíam para esmolar, sendo mãe e irmã. Tudo se passa no exíguo espaço dos lugares de São Damião. O nome verdadeiro das clarissas é o de irmãs pobres. O exemplo de Clara e as observações de sua Regra pedem que nos interessemos mais uns pelos outros, que preparemos cuidadosamente nossos encontros fraternos. Os franciscanos seculares, no momento atual, estão empenhados e rever a qualidade de sua vida fraterna e, de modo particular, a maneira como realizam os encontros fraternos. Clara grita que precisamos  viver o bem-querer concreto.

D. A grande atividade de Clara e de suas irmãs era a da oração: ofício, missa, longas horas de meditação, contemplação da Paixão de Jesus e do Crucifixo bizantino. Clara, como Francisco, pede que as irmãs, no meio de seus trabalhos, não venham a perder o espírito da santa oração. As cartas dirigidas a Inês de Praga nos falam de uma oração de união. Os franciscanos, tanto os seculares quanto os da Ordem 1ª, gostam de passar um tempo junto ao mosteiro das clarissas. Clara está gritando que toda esse nossa correria, esses discursos e essa nossa fala pouco adiantam.  Sentimos que precisamos rever a qualidade de nossa oração.  Não é possível  viver sem saudades do Senhor. Precisa haver lugar em nossas agendas a tentativa, nem sempre fácil, de buscar  o Esposo que não quer partes de nós mas a inteireza de nosso ser.

E. Os Mosteiros de clarissas serão cada vez mais próximos das pessoas, sem que percam o essencial o carisma. Suas liturgias serão eloquentes. Momentos de oração e tarde de retiro podem ser feitos em nossos Mosteiros. Franciscano seculares poderiam melhor haurir as riquezas desses Mosteiros.

F. De toda nossa reflexão ficou claro que os franciscanos e as clarissas precisarão descobrir caminhos novos a serem trilhados.  Não cansamos de repetir que se torna urgente uma fidelidade criativa. Renovar ou morrer.

G. “Hoje somos vítimas de tensões, do estresse  e da depressão que ameaçam nossa ‘saúde’ espiritual. Talvez uma das tarefas de Santa Clara poderia ser a de ajudar-nos a reencontrar a harmonia dos valores franciscano-clarianos,  a gratuidade e a beleza de nossa vida, sem pretensões de eficiência.  É fácil sermos instrumentalizados  pelas necessidades imediatas e perdermos a visão de conjunto, a capacidade de discernir aquilo que é urgente, daquilo que é necessário;  preocupamo-nos com muitos projetos que programamos ou que nos são propostos pelo mundo consumista em que vivemos e corremos o risco de esquecer o compromisso primário de ser  “projeto de Deus”. Creio que seja urgente, hoje, renovar e continuar a colaboração entre Clara e Francisco para evitar toda forma de “insânia”, de “esquizofrenia”  que destrói a própria vida consagrada”  (Frei Giacomo Bini, OFM).

Clara não reivindicou  para ela e suas irmãs o direito de pregar ou ensinar, mas desejava ardentemente  continuar vivendo em simbiose com os irmãos menores e recusava a ideia de ver a sua comunidade transformar-se em um mosteiro de virgens reclusas e dotadas de rendas;  se parece não ter tido dificuldade em aceitar a estabilidade e a clausura, à semelhança das reclusas, que, aos mesmo tempo que se dedicavam à contemplação, guardavam contato como mundo que as rodeava, Clara sempre recusou ceder no capítulo da pobreza, porque o fato de viver numa precariedade permanente  constituía o ponto sobre o qual  a sua fundação podia, diferenciando-se do monarquismo beneditino clássico, permanecer fiel ao Espírito do Poverello e, através dele,  com as aspirações evangélicas que haviam animado os movimentos leigos do século XI e começos do século XIII.

André Vauchez

Santa Clara y  los movimientos
religiosos femininos de su tiempo
Selleciones de Franciscanismo, 1977, vol 26, p. 452

Santa franciscana do dia - 11/08 - Santa Clara de Assis



Virgem, fundadora da Segunda Ordem (1194-1253). Foi canonizada por Alexandre IV no dia 15 de agosto de 1265.

Palavras do Papa Emérito Bento XVI

Uma das santas mais amadas é, sem dúvida, Santa Clara de Assis, que viveu no século XIII, contemporânea de São Francisco. Seu testemunho mostra-nos o quanto a Igreja deve a mulheres corajosas e ricas na fé como ela, capazes de dar um impulso decisivo para a renovação da Igreja. 

Quem foi então Clara de Assis? Para responder a esta pergunta, temos fontes seguras, não apenas as antigas biografias, como a de Tomás de Celano, mas também os autos do processo de canonização promovido Papa já pouco depois da morte de Clara e que contêm o testemunho dos que viveram ao seu lado por muito tempo.

Nascida em 1193, Clara pertencia a uma família aristocrática e rica. Renunciou à nobreza e à riqueza para viver pobre e humilde, adotando a forma de vida que Francisco de Assis propunha. Apesar de seus pais planejarem um casamento com algum personagem de relevo, Clara, aos 18 anos, com um gesto audaz, inspirado pelo profundo desejo de seguir a Cristo e pela admiração por Francisco, deixou a casa paterna e, em companhia de uma amiga sua, Bona di Guelfuccio, uniu-se secretamente aos frades menores junto da pequena igreja da Porciúncula. 

Era a tarde de Domingo de Ramos de 1211. Na comoção geral, realizou-se um gesto altamente simbólico: enquanto seus companheiros tinham nas mãos tochas acesas, Francisco cortou-lhe os cabelos e Clara vestiu o hábito penitencial. A partir daquele momento, tornava-se virgem esposa de Cristo, humilde e pobre, e a Ele totalmente se consagrava. Como Clara e suas companheiras, inumeráveis mulheres no curso da história ficaram fascinadas pelo amor de Cristo que, na beleza de sua Divina Pessoa, preencheu seus corações. E a Igreja toda, através da mística vocação nupcial das virgens consagradas, demonstra aquilo que será para sempre: a Esposa bela e pura de Cristo.

Em uma das quatro cartas que Clara enviou a Santa Inês de Praga, filha do rei da Bohemia, que queria seguir seus passos, ela fala de Cristo, seu amado esposo, com expressões nupciais, que podem surpreender, mas que comovem: “Amando-o, és casta, tocando-o, serás mais pura, deixando-se possuir por ele, és virgem. Seu poder é mais forte, sua generosidade, mais elevada, seu aspecto, mais belo, o amor mais suave e toda graça. Agora tu estás acolhida em seu abraço, que ornou teu peito com pedras preciosas… e te coroou com uma coroa de ouro gravada com o selo da santidade” (Lettera prima: FF, 2862).

Sobretudo no início de sua experiência religiosa, Clara teve em Francisco de Assis não só um mestre a quem seguir os ensinamentos, mas também um amigo fraterno. A amizade entre estes dois santos constitui um aspecto muito belo e importante. Efetivamente, quando duas almas puras e inflamadas do mesmo amor por Deus se encontram, há na amizade recíproca um forte estímulo para percorrer o caminho da perfeição. A amizade é um dos sentimentos humanos mais nobres e elevados que a Graça divina purifica e transfigura. 

Como São Francisco e Santa Clara, outros santos vivenciaram uma profunda amizade no caminho para a perfeição cristã, como São Francisco de Sales e Santa Giovanna de Chantal. O próprio São Francisco de Sales escreve: “é belo poder amar na terra como se ama no céu, e aprender a amar-nos neste mundo como faremos eternamente no outro. Não falo aqui de simples amor de caridade, porque este devemos tê-lo todos os homens; falo do amor espiritual, no âmbito do qual, duas, três, quatro ou mais pessoas compartilham devoção, afeto espiritual e tornam-se realmente um só espírito” (Introduzione alla vita devota III, 19).

Após ter transcorrido um período de alguns meses em outras comunidades monásticas, resistindo às pressões de seus familiares que no início não aprovavam sua escolha, Clara se estabeleceu com suas primeiras companheiras na igreja de São Damião, onde os frades menores tinham preparado um pequeno convento para elas. 

Nesse mosteiro, viveu durante mais de quarenta anos, até sua morte, ocorrida em 1253. Chegou-nos uma descrição de primeira mão de como estas mulheres viviam naqueles anos, nos inícios do movimento franciscano. Trata-se do informe cheio de admiração de um bispo flamengo em visita à Itália, Santiago de Vitry, que afirma ter encontrado um grande número de homens e mulheres, de toda classe social, que, “deixando tudo por Cristo, escapavam ao mundo. Chamavam-se frades menores e irmãs menores e são tidos em grande consideração pelo senhor Papa e pelos cardeais… As mulheres… moram juntas em diferentes abrigos não distantes das cidades. Não recebem nada; vivem do trabalho de suas mãos. E lhes dói e preocupa profundamente que sejam honradas mais do que gostariam, por clérigos e leigos” (Carta de outubro de 1216: FF, 2205.2207).

Santiago de Vitry tinha captado com perspicácia um traço característico da espiritualidade franciscana, a que Clara foi muito sensível: a radicalidade da pobreza associada à confiança total na Providência divina. Por este motivo, ela atuou com grande determinação, obtendo do Papa Gregório IX ou, provavelmente, já do Papa Inocêncio III, o chamado Privilegium Paupertatis (cfr FF, 3279). Em base a este, Clara e suas companheiras de São Damião não podiam possuir nenhuma propriedade material. Tratava-se de uma exceção verdadeiramente extraordinária em relação ao direito canônico vigente, e as autoridades eclesiásticas daquele tempo o concederam apreciando os frutos de santidade evangélica que reconheciam na forma de viver de Clara e de suas irmãs. 

Isso demonstra também que nos séculos medievais, o papel das mulheres não era secundário, mas considerável. A propósito disso, é oportuno recordar que Clara foi a primeira mulher da história da Igreja que compôs uma Regra escrita, submetida à aprovação do Papa, para que o carisma de Francisco de Assis se conservasse em todas as comunidades femininas que iam se estabelecendo em grande número já em seus tempos, e que desejavam se inspirar no exemplo de Francisco e Clara.

No convento de São Damião, Clara praticou de modo heróico as virtudes que deveriam distinguir cada cristão: a humildade, o espírito de piedade e de penitência, a caridade. Ainda sendo a superiora, ela queria servir em primeira pessoa as irmãs enfermas, submetendo-se também a tarefas muito humildes: a caridade, de fato, supera toda resistência e quem ama realiza todo sacrifício com alegria. Sua fé na presença real da Eucaristia era tão grande que em duas ocasiões se comprovou um fato prodigioso. Só com a ostensão do Santíssimo Sacramento, afastou os soldados mercenários sarracenos, que estavam a ponto de agredir o convento de São Damião e de devastar a cidade de Assis.

Também esse episódio, como outros milagres, dos quais se conservava memorial, levaram o Papa Alexandre IV a canonizá-la só dois anos depois de sua morte, em 1255, traçando um elogio a ela na Bula de canonização, onde lemos: “Quão vívida é a força desta luz e quão forte é a claridade desta fonte luminosa. Na verdade, esta luz estava fechada no esconderijo da vida de clausura, e fora irradiava esplendores luminosos; recolhia-se em um pequeno monastério, e fora se expandia por todo vasto mundo. Guardava-se dentro e se difundia fora. Clara, de fato, se escondia; mas sua vida se revelava a todos. Clara calava, mas sua fama gritava” (FF, 3284). E é precisamente assim, queridos amigos: são os santos que mudam o mundo para melhor, transformam-no de forma duradoura, injetando-lhe as energias que só o amor inspirado pelo Evangelho pode suscitar. Os santos são os grandes benfeitores da humanidade!

A espiritualidade de Santa Clara, a síntese de sua proposta de santidade está recolhida na quarta carta a Santa Inês de Praga. Santa Clara utiliza uma imagem muito difundida na Idade Média, de ascendências patrísticas, o espelho. E convida sua amiga de Praga a se olhar no espelho da perfeição de toda virtude, que é o próprio Senhor. Escreve: “feliz certamente aquela a quem se lhe concede gozar desta sagrada união, para aderir com o profundo do coração [a Cristo], àquele cuja beleza admiram incessantemente todas as beatas multidões dos céus, cujo afeto apaixona, cuja contemplação restaura, cuja benignidade sacia, cuja suavidade preenche, cuja recordação resplandece suavemente, a cujo perfume os mortos voltarão à vida e cuja visão gloriosa fará bem-aventurados todos os cidadãos da Jerusalém celeste. E dado que ele é esplendor da glória, candura da luz eterna e espelho sem mancha, olhe cada dia para este espelho, ó rainha esposa de Jesus Cristo, e perscruta nele continuamente teu rosto, para que possas te adornar assim toda por dentro e por fora… neste espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade” (Quarta carta: FF, 2901-2903).


Agradecidos a Deus que nos dá os santos, que falam ao nosso coração e nos oferecem um exemplo de vida cristã a imitar, gostaria de concluir com as mesmas palavras de benção que Santa Clara compôs para suas irmãs e que ainda hoje as Clarissas, que desempenham um precioso papel na Igreja com sua oração e com sua obra, custodiam com grande devoção. São expressões das que surge toda a ternura de sua maternidade espiritual: “Bendigo-vos em minha vida e depois de minha morte, como posso e mais de quanto posso, com todas as bênçãos com as que o Pai de misericóridas abençoa e abençoará no céu e na terra seus filhos e filhas, e com as quais um pai e uma mãe espiritual abençoa e abençoará seus filhos e filhas espirituais. Amém” (FF, 2856).

Papa Bento XVI

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Especial Santa Clara de Assis - A Consagração.



 Clara chegou à Porciúncula. Francisco a acolheu e lhe deu as boas-vindas. Comovida, ela entrou na igreja, ajoelhou-se diante do altar e, por alguns instantes, deteve-se em oração. Depois, levantou-se com decisão; tirou o calçado, despiu-se do vestido de brocado e o trocou por uma túnica grosseira, retirou seu rico cinto e o substituiu por uma corda áspera.

Em seguida, ajoelhou-se ainda; soltou de uma vez os cabelos que deslizaram sobre os ombros; depois, permaneceu com a cabeça inclinada, à espera do último sacrifício.

Francisco recolheu com delicadeza a loura cabeleira e, bem devagarzinho, a cortou. A cerimônia estava acabada.

A reação dos parentes

Como era de se prever, a reação dos parentes de Clara não se fez esperar. Pela manhã, apenas descobriram sua fuga, puseram-se em pé de guerra e rapidamente chegaram ao mosteiro de São Paulo para reconduzi-la à casa. Ameaçaram arrombar a porta. Querem Clara, viva ou morta. Com o aparato exterior e as ameaças, esperam assustá-la, mas iludem-se! Clara é irremovível. Visto que era vã toda a ameaça, recorrem às boas maneiras, às lisonjas e às promessas; fazem apelo aos sentimentos, à dor da mãe, das irmãs, de toda a família, mas Clara é inflexível; sabe que está mais em segurança entre aquelas paredes do que se estivesse num castelo.

Agarra-se ao altar – Quando se dá conta de que estão a ponto de perder o controle e recorrer à violência, Clara, com um gesto, fez desmoronar todas as ilusões deles: foge para a igreja e corre para junto ao altar; com uma das mãos segura a toalha e com a outra retira o véu da cabeça, fazendo-a aparecer sem os cabelos que haviam sido cortados.

Demonstrava, assim, ser agora consagrada a Deus e que ninguém podia tocá-la. Diante de tanta firmeza, aos familiares outra coisa não restou senão abandonarem a igreja e o mosteiro e partirem confusos.

Transferida para o mosteiro de Santo Ângelo – Em São Paulo, Clara pôde permanecer só poucos dias. Foram talvez as próprias monjas a solicitar o afastamento dela depois da confusão provocada por sua presença.

Francisco interessou-se pela transferência dela. Mais uma vez, dirigiu-se aos Padres Beneditinos e obteve a transferência de Clara para o mosteiro de Santo Ângelo de Panzo.

Finalmente um pouco de paz! – Na quietude e no silencio do mosteiro de Santo Ângelo, Clara pôde revigorar o seu ideal de vida.

Apegava-se cuidadosamente às prescrições da Regra de São Bento, que possui como fundamento: “Ora et Labora”! Com isso, Clara não pretendia, certamente, abraçar a Regra de São Be nto. Não teria tido sentido sua fuga para a Porciúncula, durante a noite, seu total abandono a Deus para além de qualquer estrutura, a exemplo de Francisco.

No mosteiro de Santo Ângelo, Clara viveu por algumas semanas. Foram para ela dias de serenidade e de alegria indescritíveis.

A alegria de Clara estava toda no sentir-se amada e protegida pelo Senhor, como mesmo amor com que uma mãe protege sua filhinha.

A fuga de casa lhe havia fechado o mundo às costas para abrir-lhe um umbral do mistério de Deus. Sua vida, agora, havia se transformado em um arco-íris de oração e contemplação: em um agradecimento alegre e infantil.

Fugira de casa em uma noite de primavera, para abraçar o ideal de total pobreza, e encontrara a verdadeira liberdade, a perfeita alegria. Havia atingido o seu sonho.

Encontra-se com sua irmã Inês

Clara sentia a necessidade de externar sua ardente experiência mística. Quase todos os dias, sua irmã Inês ia visitá-la: era uma jovem belíssima, de somente quinze anos, de grande sensibilidade para com o sobrenatural. Depois da fuga de Clara, os familiares haviam depositado nela sua esperança.

“Cara Inês — confiava-lhe a irmã — lembra-te: é preferível viver um só dia na casa do Senhor, que mil dias fora dela. A juventude é vento que passa. A beleza se desvanece como a fumaça. A vida termina e aqui não fica nada.

“Oh! minha irmã, se tu pudesses provar a doçura do amor do Senhor! E um amor sempre jovem, que ninguém nos pode arrebatar!”

Novena de Santa Clara de Assis - Santa Clara e a sua benção




Oração inicial (para todos os dias da novena)

Amável Santa Clara, que respondestes generosamente ao chamado do Senhor, ajudai-nos a alcançar a graça e a coragem de dizer um sim decidido ao plano de Deus para a nossa existência.
Vós que abandonastes a riqueza e vos fizestes humilde para seguir o Cristo pobre e crucificado, ensinai-nos a simplicidade, a justiça, a partilha, e abri nosso coração aos pobres e marginalizados.
Mulher terna e corajosa, mostrai-nos que é possível realizar o sonho da fraternidade universal, ensinai-nos a reverencia para com todas as pessoas, culturas e povos.
Vós que partilhastes com São Francisco uma amizade profunda, fazei com que nós, mulheres e homens, possamos desabrochar, no amor e na reciprocidade, todas as nossas capacidades a serviço da vida em abundancia.
Vós que inaugurastes uma nova forma de viver a igreja, na sociedade, clareai nossos caminhos para vencermos as estruturas de pecado e sermos capazes de fazer do mundo em que vivemos verdadeira terra de irmãos e irmãs. Amém!


Santa Clara preocupava-se com o cultivo da vida fraterna entre as suas irmãs. Sua benção quer confirmar sua família religiosa na vivência e convivência fraterna e no amor mútuo. A benção se constitui numa oração para perseverar na fidelidade, na fraternidade e no bem até o fim. Diz ela:

“E as abençoo em minha vida e depois da minha morte, como posso, com todas as bençãos, com que o Pai das misericórdias abençoou e abençoará seus filhos e filhas, no céu e na terra, e com as quais um pai e uma mãe espiritual abençoaram e abençoarão seus filhos e filhas espirituais, amém. Amem sempre as suas almas e as de todas as suas irmãs, e sejam solícitas na observância do que prometeram. O Senhor esteja sempre com vocês e oxalá estejam vocês sempre com Ele. Amém!”

Benção significa bem-dizer, ou seja, abençoar. A benção é reservada a todos os que lutam, perseveram e procuram ser fiéis.

Santa Clara, por sua vida, não só atraiu as bênçãos sobre si, como também sobre sua comunidade, sua cidade e sobre o mundo todo. E na medida em que nós vivemos o projeto de Deus, realizando a vontade do Pai, estaremos atraindo as bênçãos do céu sobre nós e nosso lar, sobre nossa comunidade e sociedade e sobre todos os homens e mulheres de boa vontade.

Oremos: No final desta novena em vosso louvor vos pedimos que nos abençoeis lá do céu, para seguirmos fiéis aqui na terra, vivendo como irmãos e irmãs, amando-nos sempre mais, construindo entre nós a comunhão de vida e perseverando no bem até o fim. Amém!

Fonte: Novena de Santa Clara, De Frei Atílio Abati, OFM . Editora Vozes, 1997